A retatrutida já vinha chamando atenção pelos resultados expressivos de perda de peso. Agora, os primeiros dados de fase 3 publicados no New England Journal of Medicine ajudam a entender melhor o que essa nova medicação pode representar no tratamento da obesidade.
E talvez o dado mais interessante não esteja apenas na balança.
O que é a retatrutida?
A retatrutida é uma medicação injetável semanal ainda em investigação que atua simultaneamente em três receptores hormonais: GLP-1, GIP e glucagon.
Essa combinação a diferencia das medicações que já utilizamos atualmente e vem sendo estudada tanto para perda de peso quanto para diferentes complicações associadas à obesidade.
O que mostrou o novo estudo?
O estudo TRIUMPH-1 acompanhou 2.339 adultos com obesidade, sem diabetes, durante 80 semanas.
Na análise principal do estudo, a redução média do peso corporal foi de:
- 17,6% com 4 mg;
- 23,7% com 9 mg;
- 25% com 12 mg;
comparada a 3,9% com placebo.
São resultados expressivos. Mas olhar apenas para o peso seria contar apenas parte da história.
Pressão, colesterol e triglicérides também melhoraram
O tratamento também esteve associado à melhora de diversos fatores de risco cardiometabólico.
Foram observadas reduções nos triglicérides, no colesterol não-HDL e na pressão arterial sistólica, além de redução importante da circunferência abdominal.
Isso é particularmente relevante porque obesidade não é simplesmente excesso de peso.
Ela está associada a maior risco de hipertensão, alterações do colesterol, diabetes, doença cardiovascular e diversas outras condições. Portanto, um tratamento efetivo precisa ser avaliado também pelo seu impacto sobre a saúde — e não apenas pelos quilos perdidos.
Os benefícios foram além do metabolismo
O estudo avaliou ainda grupos de participantes com osteoartrite de joelho e apneia obstrutiva do sono.
Também nesses pacientes foram observadas melhoras importantes, com redução da dor relacionada à osteoartrite e da gravidade da apneia.
Isso reforça um conceito que considero fundamental no tratamento da obesidade: perder peso não é o objetivo final.
O objetivo é melhorar saúde, mobilidade, sono, capacidade funcional, qualidade de vida e reduzir o risco de doenças relacionadas à obesidade.
E os efeitos colaterais?
Como acontece com outras terapias baseadas em incretinas, os efeitos adversos mais frequentes foram gastrointestinais, principalmente náusea, diarreia, constipação e vômitos, e ocorreram com maior frequência nas doses mais altas.
Por isso, resultados expressivos de eficácia nunca devem fazer com que a segurança e a individualização do tratamento sejam colocadas em segundo plano.
A retatrutida já pode ser utilizada?
Não. A retatrutida permanece em investigação clínica e ainda não é uma medicação aprovada para uso no tratamento da obesidade.
Os resultados são muito promissores, mas ainda precisamos acompanhar novos estudos e, principalmente, dados de segurança e desfechos em longo prazo.
O TRIUMPH-1, porém, reforça uma mudança que já está acontecendo na medicina: estamos deixando de avaliar o sucesso do tratamento da obesidade apenas pelo número da balança.
Tratar obesidade é tratar saúde.
E os próximos anos provavelmente vão ampliar ainda mais as possibilidades que temos para fazer isso.
Referência: Jastreboff AM et al. Retatrutide, a Triple Hormone Receptor Agonist, for Treatment of Obesity. N Engl J Med. 2026. DOI: 10.1056/NEJMoa2604169.
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