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RQE: 101292

Semaglutida e álcool: os agonistas de GLP-1 podem reduzir a vontade de beber?

Os agonistas de GLP-1 ficaram conhecidos principalmente pelo seu papel no tratamento da obesidade e do diabetes. Mas, conforme seu uso se tornou mais frequente, um relato começou a chamar a atenção: algumas pessoas percebiam menos vontade de consumir bebidas alcoólicas durante o tratamento.

O que inicialmente parecia apenas uma observação da prática clínica começou a ser investigado — e estudos recentes sugerem que pode existir, de fato, um efeito dos agonistas de GLP-1 sobre o consumo de álcool.

O que os estudos mostram?

Em 2025, um ensaio clínico publicado no JAMA Psychiatry avaliou 48 adultos com transtorno por uso de álcool que receberam semaglutida injetável ou placebo durante nove semanas.

Os resultados mostraram redução de alguns parâmetros relacionados ao consumo de álcool, incluindo a quantidade ingerida por ocasião de consumo e o desejo de beber. Um ponto importante, porém, é que a semaglutida não reduziu significativamente a frequência de dias em que as pessoas consumiam álcool.

Era um estudo pequeno e de curta duração, mas trouxe um primeiro sinal clínico importante.

Em 2026, resultados mais robustos foram publicados no The Lancet. Dessa vez, foram avaliadas 108 pessoas com transtorno por uso de álcool moderado a grave e obesidade durante 26 semanas.

Todos receberam terapia cognitivo-comportamental e foram randomizados para semaglutida ou placebo.

Ao final do estudo, os dias de consumo excessivo de álcool diminuíram nos dois grupos, mas a redução foi significativamente maior entre aqueles que receberam semaglutida: 41,1 pontos percentuais de redução em relação ao início do estudo, contra 26,4 pontos percentuais com placebo.

Esse resultado fortaleceu a hipótese de que o efeito observado anteriormente poderia ter relevância clínica.

Mais recentemente, outro ensaio clínico avaliou semaglutida oral em 50 pessoas que procuravam tratamento para transtorno por uso de álcool moderado a grave.

Após oito semanas, o grupo que recebeu semaglutida apresentou redução dos dias de consumo excessivo, da quantidade ingerida nos dias em que bebia e de algumas medidas de desejo por álcool e consequências relacionadas ao seu consumo.

Curiosamente, mais uma vez, o número total de dias em que as pessoas bebiam não apresentou redução significativa.

Mas por que um medicamento para obesidade poderia interferir no álcool?

O GLP-1 não atua apenas no trato gastrointestinal e nos mecanismos relacionados à fome e à saciedade.

Seus receptores também estão presentes em regiões do sistema nervoso central envolvidas em motivação, recompensa e comportamento alimentar.

Uma das hipóteses é que a ativação desses receptores possa modular circuitos relacionados à recompensa e, consequentemente, diminuir a motivação para consumir não apenas determinados alimentos, mas também substâncias como o álcool.

Isso ajuda a explicar por que existe interesse crescente em estudar essa classe de medicamentos também no contexto dos comportamentos aditivos.

Então semaglutida pode ser usada para tratar dependência de álcool?

Ainda não.

Os resultados são promissores, mas precisam ser interpretados com cautela.

Estamos falando de estudos relativamente pequenos, com períodos de acompanhamento curtos e populações bastante específicas. No estudo do Lancet, por exemplo, todos os participantes tinham obesidade; no estudo com semaglutida oral, todos tinham sobrepeso ou obesidade.

Além disso, ainda precisamos entender qual seria a dose ideal, por quanto tempo o possível benefício se mantém, quais pacientes poderiam responder melhor e o que acontece após a suspensão do medicamento.

Também é importante lembrar que o transtorno por uso de álcool é uma condição complexa, cujo tratamento pode envolver acompanhamento médico, psicológico, intervenções comportamentais e medicamentos já estudados especificamente para essa finalidade.

Um potencial interessante — mas ainda em investigação

Os resultados dos últimos anos tornam cada vez mais difícil considerar a redução do consumo de álcool durante o uso de GLP-1 apenas como um relato curioso de pacientes.

Existe um sinal clínico consistente e biologicamente plausível, e os estudos estão ficando maiores e mais robustos.

Isso não significa, porém, que a semaglutida deva ser prescrita com o objetivo de tratar o transtorno por uso de álcool neste momento.

Por enquanto, talvez a conclusão mais interessante seja outra: ainda estamos descobrindo a extensão dos efeitos dos agonistas de GLP-1 sobre os mecanismos de fome, recompensa, desejo e comportamento.

E provavelmente ainda há muito a aprender.

Fonte: 

Hendershot CS et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults With Alcohol Use Disorder: A Randomized Clinical Trial. JAMA Psychiatry. 2025;82(4):395-405.

Klausen MK et al. Once-weekly semaglutide versus placebo in patients with alcohol use disorder and comorbid obesity: a randomised, double-blind, placebo-controlled trial. The Lancet. 2026;407:1687-1698.

Schacht JP et al. Oral Semaglutide for Alcohol Use Disorder: A Randomized Clinical Trial. American Journal of Psychiatry. 2026;183(9):636-645.

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