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Reposição de testosterona em homens: quando realmente é indicada?

A testosterona é um hormônio fundamental para a saúde masculina. Ela participa da função sexual, manutenção da massa muscular e óssea, produção de espermatozoides, distribuição de gordura e diversos outros processos do organismo.

Com o passar dos anos, é natural que os níveis de testosterona sofram alguma redução. Mas isso não significa que todo homem que envelhece precise fazer reposição hormonal.

A indicação de testosterona é mais específica: é preciso haver sintomas compatíveis com deficiência hormonal e níveis de testosterona persistentemente baixos, confirmados por exames adequadamente realizados.

O consenso mais recente sobre o assunto no Brasil, publicado em 2026 por sociedades brasileiras de Endocrinologia, Urologia e Medicina Sexual, reforça justamente a importância de diferenciar o verdadeiro hipogonadismo de alterações hormonais funcionais ou do uso da testosterona com objetivos que não são indicados.

Afinal, quando a reposição de testosterona é indicada?

A reposição de testosterona pode ser indicada para homens com hipogonadismo, ou seja, uma deficiência de testosterona acompanhada de manifestações clínicas compatíveis.

Entre os sintomas que podem levantar essa suspeita estão:

  • redução da libido;
  • diminuição das ereções espontâneas ou piora da função sexual;
  • cansaço e redução de energia;
  • perda de massa muscular;
  • aumento de gordura corporal;
  • redução da densidade mineral óssea;
  • alterações de humor e bem-estar;
  • infertilidade, dependendo da causa do hipogonadismo.

 

O problema é que muitos desses sintomas são inespecíficos e podem ocorrer por diversos outros motivos. Estresse, privação de sono, obesidade, sedentarismo, depressão, algumas doenças crônicas e determinados medicamentos, por exemplo, também podem causar sintomas semelhantes.

Por isso, não é possível diagnosticar deficiência de testosterona apenas pelos sintomas.

E o exame de testosterona?

O diagnóstico deve combinar avaliação clínica e laboratorial.

A recomendação brasileira é medir a testosterona total pela manhã, idealmente entre 7h e 10h, em jejum, e confirmar um resultado reduzido com uma segunda dosagem em condições semelhantes.

O consenso brasileiro considera que valores de testosterona total abaixo de aproximadamente 264 ng/dL dão suporte ao diagnóstico de hipogonadismo, enquanto valores acima de 350 ng/dL geralmente afastam a condição. Na faixa intermediária, entre 264 e 350 ng/dL, a avaliação deve ser individualizada, podendo incluir SHBG, albumina e testosterona livre calculada.

Por isso, aquele cenário de “fiz um exame e minha testosterona está baixa, então preciso repor” é muito mais complexo do que parece.

Antes da reposição, é importante descobrir por que a testosterona está baixa

O hipogonadismo pode acontecer por alterações diretamente nos testículos ou por problemas na regulação hormonal pelo hipotálamo e pela hipófise.

Além disso, existe o chamado hipogonadismo funcional, bastante relacionado a condições como obesidade, diabetes, doenças crônicas, distúrbios do sono e alterações metabólicas.

Nesses casos, a queda da testosterona pode ser parcialmente reversível quando a condição de base é tratada. Perda de peso, prática regular de exercícios, melhora do sono e tratamento das doenças associadas podem fazer parte do tratamento — e, em alguns homens, podem ser suficientes para recuperar os níveis hormonais sem necessidade de reposição.

Por isso, a testosterona não deve ser encarada como um tratamento isolado para os efeitos metabólicos do excesso de peso.

Quais formas de reposição de testosterona são utilizadas no Brasil?

Quando existe indicação de tratamento, há diferentes formas de administração.

> Injetável: As formulações intramusculares são amplamente utilizadas no Brasil. Existem preparações de diferentes durações de ação, e as formulações de longa duração podem proporcionar níveis hormonais mais estáveis e menor frequência de aplicações.

> Gel transdérmico: A testosterona também pode ser utilizada na forma de gel aplicado sobre a pele. Uma das vantagens é a possibilidade de proporcionar níveis mais estáveis de testosterona, sem os picos e quedas que podem ocorrer com algumas formulações injetáveis.

A escolha entre as opções deve considerar características do paciente, preferência, custo, disponibilidade, facilidade de uso, resposta clínica e efeitos adversos.

O consenso brasileiro recomenda as formulações intramusculares e transdérmicas como opções respaldadas para o tratamento do hipogonadismo masculino.

E os implantes de testosterona?

Os implantes subcutâneos de testosterona são comercializados no mercado manipulado, mas não são recomendados pelas sociedades médicas brasileiras para o tratamento do hipogonadismo masculino, principalmente pela ausência de formulações aprovadas com farmacocinética consistente e pela limitação das evidências de segurança e eficácia.

Da mesma forma, formulações orais de testosterona e géis manipulados não são consideradas opções recomendadas no consenso brasileiro.

Quais são os riscos da reposição de testosterona?

Testosterona é um hormônio e, como qualquer tratamento hormonal, não é isenta de efeitos adversos.

Entre os possíveis efeitos estão:

  • aumento do hematócrito e risco de eritrocitose;
  • acne e aumento da oleosidade da pele;
  • queda de cabelo em indivíduos predispostos;
  • aumento ou aparecimento de ginecomastia;
  • retenção de líquidos;
  • piora de alguns distúrbios respiratórios do sono;
  • redução do volume testicular;
  • redução da produção de espermatozoides e infertilidade.

Um dos pontos mais importantes é justamente a fertilidade.

A testosterona aplicada de fora para dentro do organismo reduz a produção de LH e FSH e, consequentemente, pode diminuir significativamente a produção de espermatozoides.

Por isso, homens que desejam ter filhos no curto prazo não devem iniciar reposição de testosterona sem uma avaliação específica

Quando a testosterona não deve ser iniciada?

Existem situações em que a reposição é contraindicada ou exige avaliação especializada e acompanhamento mais próximo.

Entre elas estão:

  • câncer de próstata conhecido ou suspeito;
  • câncer de mama masculino;
  • desejo de fertilidade no curto prazo;
  • hematócrito elevado;
  • apneia obstrutiva do sono grave não tratada;
  • insuficiência cardíaca descompensada;
  • infarto ou AVC nos últimos 6 meses.

 

Homens com histórico de tromboembolismo, sintomas urinários importantes ou histórico de câncer de próstata tratado também precisam de avaliação individualizada antes do tratamento.

A reposição precisa ser acompanhada

Iniciar testosterona não significa simplesmente “tomar o hormônio e repetir o exame daqui a um ano”.

O acompanhamento deve avaliar tanto a resposta clínica quanto os exames laboratoriais.

O consenso brasileiro recomenda monitorar os níveis de testosterona aos 3, 6 e 12 meses após o início do tratamento e, posteriormente, a cada 6 a 12 meses, com ajustes da dose para manter os níveis dentro da faixa fisiológica desejada. Hemograma/hematócrito e avaliação prostática também fazem parte do acompanhamento conforme o perfil e a idade do paciente.

Mais importante ainda: se o homem não apresentar melhora clínica após alguns meses, mesmo com níveis adequados de testosterona, é necessário questionar se a deficiência hormonal era realmente a causa dos sintomas.

Em determinadas situações, a melhor conduta pode ser ajustar ou até suspender o tratamento.

Testosterona baixa não significa necessariamente “falta de testosterona para repor”

Essa talvez seja a principal mensagem.

Um resultado laboratorial isolado não deve determinar uma terapia hormonal.

Antes de pensar em reposição, é necessário responder algumas perguntas:

Existem sintomas compatíveis?
A testosterona está realmente baixa e foi confirmada?
Qual é a causa dessa alteração?
Existe alguma condição reversível contribuindo para o problema?
O paciente deseja preservar a fertilidade?
Existem contraindicações ao tratamento?

A testosterona pode ser um tratamento importante e eficaz para homens com hipogonadismo corretamente diagnosticado. Mas seu uso deve ser individualizado, com indicação médica e acompanhamento adequado.

E, especialmente em homens com excesso de peso, alterações metabólicas ou doenças crônicas, tratar a causa da alteração hormonal pode ser tão importante quanto olhar para o próprio hormônio.

 

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