CRM-SP 207304 • RQE 101292 • 125156

RQE: 101292

“A viuvez do peso mínimo” – por Desire Coelho

“Outro dia ouvi uma expressão que não me sai da cabeça: “a viuvez do peso mínimo”. Infelizmente, não lembro quem disse, mas ela ficou ressoando em mim desde então. Poucos dias depois, assisti a um vídeo tragicômico no Instagram: uma mulher, aparentemente em situação de rua, é abordada e lhe oferecem comida. Ela recusa. Diz que o que quer, na verdade, é “caneta para emagrecer”. Com o surgimento das novas medicações para o tratamento da obesidade, temos assistido a um fenômeno perigoso: o uso estético dessas drogas por pessoas que não têm obesidade ou sobrepeso com comorbidades. O resultado? O risco de uma forma de dependência — agora emocional — dessas substâncias, em nome de um corpo cada vez mais magro e/ou musculoso, com gordura corporal mínima e definição extrema. Muitas pessoas carregam a lembrança de uma época em que atingiram seu peso mais baixo — geralmente por métodos extremos ou não sustentáveis — como se fosse o ápice de suas vidas. E aqui entra a psicologia de Daniel Kahneman: segundo ele, não é a experiência em si que mais marca nossa memória, mas sim como ela termina.Ou seja, se aquele processo de emagrecimento terminou com elogios, roupas que voltaram a servir, sensação de controle — mesmo que tenha sido acompanhado de fome, sofrimento, distorções e rigidez — a memória predominante será a do desfecho “positivo”. Isso faz a pessoa desejar o peso mínimo como se ele fosse um lugar de felicidade. Apesar de tantos avanços no conhecimento, a gordura corporal ainda é tratada como um mal a ser evitado a todo custo – e isso tem um preço alto. O tecido adiposo é um órgão essencial ao funcionamento do corpo. Tanto seu excesso quanto sua escassez podem comprometer a saúde e até colocar a vida em risco. Por isso o corpo possui mecanismos de defesa. Sempre que tentamos forçar um emagrecimento além do que ele considera seguro, ele responde: aumenta a fome, reduz o gasto energético, ativa pensamentos obsessivos sobre comida. Em outras palavras: ele tenta sobreviver. Como profissionais de saúde, temos a responsabilidade de trazer essa conversa à tona. Não só nas consultas, mas nas redes sociais e onde mais for possível. Não estou dizendo que “ser gordo é bom” e que “ser magro é ruim”. Não se trata de trocar um ideal por outro. Trata-se de entender que nenhum extremo é saudável. O que temos hoje é uma romantização da magreza extrema: corpos exibidos como troféus, rotinas fitness que escondem sofrimento e transtornos. E, frequentemente, anos depois, essas mesmas pessoas vêm a público admitir que sofriam, sim, de um transtorno alimentar. Que estavam em sofrimento. Que não eram felizes. E o que podemos fazer diante disso tudo? Nosso papel não é reforçar ideais inatingíveis — é acolher, informar e proteger. Precisamos: Desmitificar a ideia de que mais magro é sempre melhor; Reforçar que saúde não é só peso: é funcionamento, é relação com o corpo, é bem-estar; Oferecer caminhos sustentáveis, respeitosos e baseados na ciência; Escutar nossos pacientes e entender seu sofrimento sem julgamentos e com atenção verdadeira. Não é fácil nadar contra a corrente dos algoritmos, das redes e das pressões estéticas.Mas é urgente, e começa com a forma como nos comunicamos, orientamos e cuidamos.”   Vale a pena a leitura e reflexão. 

Abrir WhatsApp
Olá!
Como posso te ajudar?